16/09/2021 às 16h32min - Atualizada em 16/09/2021 às 16h32min

Suspensão de vacinação para adolescentes foi decidida pelo Ministério da Saúde sem ouvir técnicos

Por Malu Gaspar, Mariana Carneiro e Johanns Eller
Por Malu Gaspar, Mariana Carneiro e Johanns Eller
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, entre os secretários de Vigilância, Arnaldo Medeiros, e da Covid, Rosana Leite | Reprodução
Por Malu Gaspar, Mariana Carneiro e Johanns Eller

A suspensão da vacinação de adolescentes contra a Covid-19, anunciada nesta quarta-feira pela Secretaria Especial da Covid do Ministério da Saúde, não passou pelas equipes de especialistas do Programa Nacional de Imunização e da Câmara Técnica do Ministério da Saúde. Os conselhos de secretários de saúde estaduais e municipais também não foram consultados. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, alegou falta de evidências científicas para a recuo na vacinação de adolescentes.
 

A forma como a decisão foi tomada provocou irritação entre os membros da Câmara, do PNI e dos secretários de saúde ouvidos pelo Globo nesta tarde. “Não fomos informados, nem consultados dessa decisão. Não entendo e não vejo clareza em suspender a vacinação”, diz um dos membros da câmara técnica que pediu para não ser identificado.

Embora a consulta a essas instâncias não seja obrigatória por lei, ela sempre é feita porque esse tipo de decisão tem um impacto abrangente não só no esquema de vacinação mas no próprio planejamento da imunização em geral.

Além disso, o próprio Ministério da Saúde havia publicado na segunda-feira (13), um "Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação", este sim feito em conjunto com os órgãos consultivos do ministério da Saúde, recomendando que os adolescentes fossem vacinados depois de se completar a primeira dose na população acima de 18 anos.

Por esse plano, primeiro seriam vacinados os adolescentes com comorbidades. Depois, os outros. O ministério previa que essa etapa começasse no dia 15 de setembro, mas muitos estados a anteciparam por já terem completado a primeira dose nos adultos. Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, já vacinaram mais da metade dos adolescentes.

O Ministério da Saúde afirma que mais de 3 milhões de adolescentes já foram vacinados no Brasil todo. "Tinha essa recomendação, mas os estados já tinham vacinado os outros grupos", diz Daniel Soranz, o secretário municipal do Rio de Janeiro. "Não iríamos ficar com vacina em estoque sem aplicar. Isso nunca aconteceria."

Na "nota informativa" publicada na noite desta quarta-feira (15), o ministério justifica a decisão dizendo que a "Organização Mundial de Saúde não recomenda a imunização de crianças adolescentes, com ou sem comorbidades". Técnicos que integram a comissão dizem que a informação está distorcida e que a decisão gera insegurança na população contra a vacina.

“A OMS é clara ao dizer que a vacinação deve ser priorizada em países onde a população adulta ainda não foi totalmente imunizada. Mas isso não tem relação com como cada país lida com essa dinâmica internamente. O Brasil não vai esperar todos os países da África terminarem a sua vacinação antes de imunizar os adolescentes”.

Outra informação usada pela secretária especial de enfrentamento à Covid para justificar a suspensão é a possibilidade de ocorrerem efeitos adversos em adolescentes. Os especialistas que compõem a Câmara Técnica afirmam que há formas de lidar com essa questão sem paralisar a imunização, como optar pela imunização com a Coronovac, como fez o Chile, ou com apenas uma dose da Pfizer, em discussão em outros países. “O que não se pode é suspender uma orientação baseado em rumores”.

Entre os outros motivos alegados pelo Ministério da Saúde para suspender a vacinação estão o fato de a maior parte dos adolescentes apresentar sintomas leves de Covid e a diminuição no número de casos e óbitos por Covid.

Na entrevista coletiva dada agora à tarde em Brasília, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que a suspensão foi determinada em razão da ocorrência de uma morte de uma adolescente que tomou a dose da Pfizer e veio a falecer, e do fato de o Reino Unido ter suspendido a vacinação nesse público. O ministro não deu mais detalhes sobre o caso. Queiroga disse ainda que pretende levar uma "palavra de credibilidade" e de "segurança" à sociedade.

Além da decisão tomada sem a consulta às equipes técnicas, o Ministério da Saúde ainda não designou o novo coordenador do Programa Nacional de Imunização. O cargo está vago desde julho, quando Francieli Fantinato pediu exoneração.

A decisão de suspender a vacinação em adolescentes provocou reação também no Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), que enviaram à Anvisa um pedido de "posicionamento imediato" da agência sobre a vacinação de adolescentes entre 12 e 17 anos. Na avaliação do Conass, o Ministério da Saúde não tem competência no tema, que cabe exclusivamente à reguladora.

Na avaliação dos conselhos, a imunização de adolescentes "cumpre importante papel na estratégia de controle da pandemia no Brasil". O presidente do Conass, Carlos Lula, e do Conasems, Wilames Freire Bezerra, a disponibilidade de doses anunciada pelo próprio Ministério da Saúde permitiria não só o avanço na vacinação de adolescentes com e sem comorbidades, como a diminuição do intervalo entre as doses e a conclusão da proteção da população adulta.

O Globo


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