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19/03/2024 às 07h37min - Atualizada em 19/03/2024 às 07h37min

Opinião - Vida de Alcoólatra: Como a ansiedade acabou me conduzindo ao álcool

Alcoolismo não é só sobre o álcool, e sim uma sequência de situações extremas; a saúde mental está no topo delas

Alice.S
Folhapress
A ansiedade leva ao medo. E ele sempre me paralisou' - Getty Images

A ansiedade me acorda todos os dias. Sinto um sufoco no peito, meu coração dispara, meus pensamentos ficam divagando no passado, muitas vezes lamentando o que fiz, e outras vezes no futuro, imaginando o que vou fazer e o que possivelmente não vou ter tempo de fazer nessa vida. Isso por volta das sete horas.

Acordo já com a sensação de que minha cabeça está participando de uma reunião com mil pautas urgentes e desorganizadas. A mais recorrente é a que eu sou a pior pessoa do mundo por ter feito x, y ou z. Não só na época das bebedeiras, mas agora em recuperação também.

E até eu "descobrir" que eu não sou a pior pessoa do mundo, o xadrez mental já me cansou tanto a ponto de me deixar esgotada. Aí minha mãe liga.

Bom dia, tudo bem?

Estou cansada.

Nossa, mas o dia mal começou.

POIS É.

Com as redes sociais a reunião da minha cabeça ganha uma velocidade bem acelerada. A tal da vida online de 24 horas me consome antes mesmo do café. Fico na tela sem ao menos levantar da cama, o que costuma acontecer às sete e meia, oito.

A sobriedade me devolveu a vida diurna que eu não tinha mais. Então levanto, preparo meu café da manhã (novidade da vida sóbria) e enquanto curto o café, enfrento um inimigo cruel: o vitimismo. É isso, sou vítima de uma doença chamada alcoolismo mas não posso ficar me vitimizando.

Pensamentos como "Coitada de mim, bebi muito e fiz muitos estragos", "Ninguém me entende", "Nunca vou conseguir fazer nada legal" costumam ser corriqueiros na cachola. Aí entro com as ferramentas que adquiri no meu tratamento e faço de tudo para mudar o rumo da mente.

Me troco, boto um tênis, pego meu cachorrro e vou caminhar por pelo menos 30 minutos num ritmo acelerado. Sempre me falaram sobre os exercícios físicos, mas eu nunca dei muita importância ou a doença nunca permitiu. Agora eu tento fazer diferente. Silencio o boicote interno e simplesmente vou.

Isso me ajuda muito, os pensamentos vão ficando mais claros, observo que a vida real é bem diferente daquela que está na tela do meu celular e também na minha cabeça. Vivenciar a cidade, observar as pessoas entrando no ônibus, correndo ou comendo um pão na chapa na padaria é essencial para quebrar o velho hábito de me colocar no centro do mundo e me enganar.

Falamos sobre isso, meu terapeuta e eu, na última consulta. O quanto que eu me engano. Vislumbro uma situação e as pessoas com quem vou conviver e idealizo um mundo que não existe. Talvez isso se deva ao meu isolamento alcoólico.

No meu período de ativa, eu ficava alimentando esses pensamentos destrutivos e não saía deles. Acordava, sentia tudo isso e não achava que poderia suportar mais um dia nessa condição, por isso bebia, tomava remédio ou ficava na cama chorando por muito tempo. Pensamentos cíclicos que cansam e a única forma de sair deles é ir chocá-los com a realidade. Quase nunca o que eu penso é o que realmente acontece na vida.

A maior lição de todas é cuidar mais de mim e ter a certeza absoluta de que os outros não estão ligando ou prestando muita atenção no que se passa na minha vida. Essa mania de achar que sou o umbigo do mundo deve ser porque o álcool muitas vezes me fez centro dos lugares pelos quais passava. Então o costume de ser assunto por causa dos vexames foi ensinando minha cabeça a acreditar nisso automaticamente.

Mas não, por mais que eu me destacasse em uma determinada situação, ninguém parava a vida para ficar acompanhando os passos dos meus desastres alcoólicos. Lembro muito de perguntar para as pessoas nos dias seguintes às bebedeiras: O que estão falando de mim? As respostas eram basicamente: Nada, está todo mundo tocando a própria vida.

O ganho enorme que tenho hoje é perceber, por mais bobo que possa parecer, que eu não sou tão importante quanto a minha doença me fez acreditar. A ansiedade/angústia é a morte de quem vive, ouso distorcer a ideia do poeta Vinicius de Moraes. ("A morte é angústia de quem vive").

A ansiedade leva ao medo. E ele sempre me paralisou. Me deixou sozinha me jogando no lixo e conduzindo ao álcool. Porque muito provavelmente eu sempre fui ansiosa e, quando senti isso pela primeira vez, eu não suportei e procurei caminhos rápidos para me safar daquele horror.

O alcoolismo não é só sobre o álcool. O alcoolismo é uma sequência de situações extremas. E para mim, a ansiedade está no topo da quadrilha.

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