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05/10/2021 às 08h21min - Atualizada em 05/10/2021 às 08h21min

Jovens conseguem diploma, mas ficam desempregados

Formandos do Pronatec e de cursos universitários têm dificuldade de alocação em suas áreas e acumulam dívidas

Fernanda Canofre Ana Luiza Albuquerque Porto Alegre , Eldorado do Sul e Rio de Janeiro
https://www1.folha.uol.com.br/
Folha

Desempregada em 2013, Luciele Malaguez, 37, tinha passado a madrugada insone quando viu na televisão algo sobre cursos do Pronatec ofertados de forma gratuita.

“Brilhou meus olhos quando eu vi a professora falando que dava para fazer, por cliente, cada sessão a R$ 80 ou R$ 100”, diz, sobre a formação como massagista.

Apesar de ter aprendido com os três meses de curso, ela nunca conseguiu vaga na área. Os equipamentos para começar como autônoma também eram caros para que conseguisse bancar.

"Gostei do curso. Mas a gente perde a prática. Lembro de alguma coisinha, 300 e poucos ossos do corpo, não sei quantos músculos.”

Com ensino fundamental no currículo, Luciele passou a trabalhar como garçonete, aproveitando outro curso profissionalizante que fez pouco tempo antes, pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), quando estava grávida do filho caçula, hoje com 7 anos.

Graças ao curso, ela conseguiu emprego no Mercado Público de Porto Alegre, depois em um restaurante de sushi, mas acabou desempregada antes da pandemia. Há um mês e meio vive de bicos nos fins de semana, em outro restaurante de sushi, em Eldorado do Sul, a 12 quilômetros da capital.

Na cozinha da casa de madeira, sem pintura, onde mora com o companheiro e dois dos quatro filhos, próximo à região das ilhas do Guaíba, Luciele mostra um botijão de gás pequeno que conseguiu e que tem garantido que possa cozinhar. “Espero que dure”, diz.

A renda na casa de Luciele hoje depende dos cerca de R$ 350 que recebe entre Bolsa Família e do auxílio emergencial, além de trabalhos eventuais que ela e o companheiro conseguem.

Luciele chegou a tentar vender pastel e bebidas na porta de casa no ano passado, mas levou calote de alguns clientes. “Fica pobre devendo para mais pobre”, diz.

Outra formanda do Pronatec no Rio Grande do Sul, Ananda Santos Flores, 35, concluiu o curso de desenhista mecânico no Senai ao lado do marido Ubiratã Alves Barboza, 53. As aulas capacitavam alunos para o uso de programas como AutoCad.

Os dois, no entanto, tiveram dificuldade de colocação. “O curso dava uma base, mas a gente nunca conseguiu trabalhar como desenhista mecânico, só como auxiliar de produção”, diz Ananda.

Ela hoje é monitora de educação concursada pela prefeitura de Estrela, a 112 quilômetros de Porto Alegre, e faz graduação em psicopedagogia. Seu marido trabalha como fiscal de uma rede de lojas de roupas e faz curso de processos gerenciais.

Mas outro curso que ele fez pelo Pronatec, como técnico em logística, pode servir em uma vaga interna no emprego atual, acredita.

Além de cursos via Pronatec, muitos que terminaram o ensino superior nos últimos anos não conseguiram emprego na área de formação.

Quando entrou na faculdade de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), uma das mais prestigiadas do país, Rodrigo Reis, 26, havia sido o primeiro da família a ingressar no ensino superior. Mas, ao final, ficou deprimido ao ter os planos frustrados. Apesar de muitas tentativas, não conseguiu lugar no mercado de trabalho. “Fui muito idealista, sonhador. Achava que teria uma trajetória de sucesso, daquelas que se vê na televisão”, diz.

Desde que iniciou o curso, Rodrigo conta que os professores já avisavam sobre as dificuldades do mercado. Mesmo assim, manteve-se positivo, percorrendo de segunda a sexta os quase 90 km que separam Japeri, na Baixada Fluminense, e o campus da Praia Vermelha, na zona sul do Rio. Interessado em cinema, séries e música, tinha o sonho de se tornar um repórter de cultura.

Rodrigo conta que tentou muito, mas não conseguiu vaga de estágio.

Após se formar, tentou trabalho fora de sua área, como vendedor de loja, também sem sucesso. Ele afirma que não queria compor a estatística “nem nem”, dos jovens que não estudam ou trabalham, e por isso decidiu ingressar em uma nova graduação, dessa vez em administração.

O estudante ganhou experiência de um ano na empresa júnior da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), e agora tenta novamente uma oportunidade no mercado. Enquanto isso, mora com os pais, que têm renda familiar entre três e quatro salários mínimos.

A dificuldade de obter experiência profissional durante a graduação também é apontada por Soraia Gomes, 26, como um dos motivos para o desemprego. Formada em Enfermagem na Universidade Veiga de Almeida, Soraia tenta colocação no mercado desde o início do ano.

Enquanto não consegue, é estudante em uma pós e ganha R$ 1.500, temporariamente, para cuidar de duas amigas recém-operadas. Também faz bicos aos finais de semana, como copeira, faxineira ou animadora de festa. “Se me chamar para fazer qualquer coisa, eu faço”, diz.

Moradora da Serrinha, favela localizada em Madureira (zona norte do Rio), Soraia vive com a mãe, empregada doméstica. As duas conseguem ganhar cerca de R$ 2.400 por mês, mas a conta não fecha. Só no cartão de crédito, a estudante paga cerca de R$ 2.700 por mês.

Isso porque na metade da faculdade Soraia perdeu o Fies (financiamento estudantil promovido pelo governo federal) por não ter atingido o aproveitamento de 75% nas classes. Ela conta que reprovou em algumas disciplinas online. “Às vezes não tinha internet, e é bem diferente aprender presencial e online. Eu tinha muita dificuldade”, diz.

Para concluir os estudos, Soraia teve que parcelar em muitas vezes, no cartão da empregadora de sua mãe, um total de mais de R$ 40 mil. “A faculdade embolou toda a vida financeira da minha família, porque acabou que todo mundo teve que ajudar”, diz. Além disso, como muitos outros estudantes, ela também acumula dívidas com o Fies.

​No ano passado, nos primeiros meses da pandemia da Covid-19, Soraia fez uso do auxílio emergencial de R$ 600 do governo, que agora é de R$ 150. “O mercado, do jeito que está caro, compra manteiga, arroz e feijão, já foi R$ 150. Não é porque a gente come filé mignon, mas não tem como economizar, está muito caro”, diz.


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